
Cinema, Aspirinas e Urubus
Cinema, Aspirinas e Urubus é o primeiro longa-metragem de Marcelo Gomes. O diretor conta que o argumento do filme surgiu de uma conversa com seu tio-avô Ranulpho Gomes, um paraibano que, nos anos 40, depois de enfrentar secas contínuas, decidiu migrar para o sudeste brasileiro, onde esperava encontrar uma perspectiva de vida melhor.
Em sua jornada, Ranulpho (o personagem do filme) conhece o alemão Johann, que também havia migrado, fugindo de seu país antes mesmo que este fosse consumido pela Segunda Guerra. Johann viaja pelo Brasil como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos os males”, a Aspirina. Em uma de suas viagens pelo sertão nordestino, seu caminho cruza com o de Ranulpho. É deste encontro, desta viagem, compartilhada por estes dois personagens, que nasce Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme que retrata o cotidiano dessa experiência, os encontros com outros viajantes, as conversas, os perigos, as ameaças e, finalmente, a construção de uma amizade entre pessoas de culturas tão diferentes.
Rodado em 2003, no sertão brasileiro, o filme é uma obra em que todos os recursos empregados estão em função dos personagens, da fotografia aos diálogos, passando pela direção de arte e trilha sonora. "É um filme de personagens, em que a câmera, sempre na mão, está o tempo todo à disposição deles", explica Gomes.
Cinema, Aspirinas e Urubus possui várias nuances, que são, aos poucos, descobertas ao longo da narrativa. Por isso, é um filme que trata também do processo de modernização do Brasil, de sua participação na guerra, de sua política exclusivista, em que populações de áreas remotas e pobres são preteridas nos processos de modernização econômica. "Não é um filme sobre o sertão, sobre a seca. Estes elementos estão sempre como coadjuvantes, aparecem sempre da janela do caminhão que Johann dirige. A perspectiva é sempre de dentro para fora e não do sertão para o homem", afirma Gomes.
"Tudo em Urubus é contido, simples. A fotografia traduz o estranhamento e a cegueira que a luz do sertão provoca no alemão Johann. O mesmo tom de simplicidade é mantido na direção de arte, na atuação dos atores, nos planos longos. Tudo isso imprime uma verdade ao sentimento daqueles personagens”, explica Gomes.
JOÃO MIGUEL:
Cinema, Aspirinas e Urubus marca a estréia do ator baiano João Miguel como protagonista no cinema. Para ganhar o papel de Ranulpho, ele passou por testes com mais de 300 outros atores. Nesta época, João Miguel estava em cartaz com a peça O Bispo, sobre a vida e obra do artista Arthur Bispo do Rosário, e foi observado pelo diretor Marcelo Gomes.
Antes disso, o ator havia trabalhado por um ano e meio com o Grupo Piolim. E durante as filmagens pôde voltar a contracenar com atores do grupo, como os paraibanos Zezita e Nanego de Lira.
Atualmente, João Miguel continua em cartaz com O Bispo, que já foi visto por mais de 90 mil pessoas em todo o Brasil, e desenvolve o projeto de Pássaro, Flor e Qualquer Coisa que a Senhora Quiser, que irá dirigir.
Entrevista com João Miguel
Quem é Ranulpho?
Ranulpho é um sobrevivente. É alguém que não é submisso, não é vitimista e nem conformado. Ele quer ganhar o mundo. Ele aprende a se virar, apesar de não ter tido muitas oportunidades. Ele quer ser um cidadão. Tem de ultrapassar os limites, a condenação do lugar a que pertence. Ao mesmo tempo em que ele sente repulsa pelo que lhe é espelho, que rejeita parte de seu mundo, no qual ele não quer viver, ao longo de sua viagem, revê tudo isso e passa a enxergar o sertão e o sertanejo de outra forma. Ele é extremamente carismático, mas é humano. Tem seus defeitos, sua rabugice.
Como foi o processo de criação de Ranulpho? O fato de você ser um ator nordestino contribuiu para este trabalho?
Foi um processo intenso. Ranulpho pode ser definido como uma soma de vários sertanejos. Ele, assim como o filme, pode ser de qualquer lugar no sertão brasileiro. Não é um estereótipo, não é caricato. Como eu vivi na Paraíba por um ano e meio, trabalhando com atores paraibanos do grupo Piolim, e também viajei muito pelo nordeste, pude ter uma visão múltipla do povo do sertão. Está tudo em Ranulpho. Compô-lo foi dar veracidade à sua figura. E foi difícil porque eu estava há quatro anos fazendo O Bispo, um personagem totalmente diferente, envelhecido, que havia passado 60 anos em um hospício. Ranulpho é diferente, é jovem, quer ganhar o mundo. Tive um mês para incorporar sua personalidade. Neste mês ensaiei com o elenco, repassamos o filme todo. Mas este sertanejo, o Ranulpho, ganha força quando começamos a filmar.
Assim como você carrega a autenticidade de ser um ator nordestino interpretando um personagem nordestino, Peter Ketnath (Johann) é um ator alemão na pele de um alemão que se aventura pelo Brasil. Esta diferença natural entre vocês contribuiu para o trabalho?
Com certeza. Apesar de nossas diferenças não serem tão imensas quanto são no filme, nós tínhamos nossas particularidades e isso poder sentido. Mas soubemos tirar partido disso, principalmente o Marcelo, com seu olhar particular. Pudemos todos aprender mesmo um com o outro. Foi um processo muito gratificante. O desenho dos dois personagens é um registro de interpretações muito bem delineadas. A própria solidão de cada um faz com que nada neles seja caricatural.
O que mais o marcou em Cinema, Aspirinas e Urubus?
Para mim, o filme, sem perder a trajetória humana de cada personagem, constrói o viver de cada situação cotidiana e descobre a urgência que cada situação destas representa. É, em sua despretensão, um longa que tem muitas pretensões, como a de dar muitos recados. Recados sobre a questão das diferenças, das imposições históricas, o determinismo geográfico, como cada homem vê sua realidade. É um filme intimista, mas que trata de grandes questões. E é contemporâneo. Estas questões persistem até hoje.